Manual de
Desenvolvimento de Produtos
Este manual surge da
percepção da necessidade por
referências práticas, em português, sobre como
desenvolver produtos. O tema é cada vez mais
relevante, à medida que o Brasil caminha rumo ao
desenvolvimento. Em toda a economia que cresce, a cada dia, aparecem
novos problemas e, com eles, oportunidades de desenvolver e
comercializar novas soluções. Isso pode ser feito de
forma empírica, mas, pode ser feito muito melhor e mais
rápido
de forma sistemática.
Infelizmente, a literatura
disponível nesta área tende a ser pouco
prática e apresentar poucos exemplos. Neste manual de
desenvolvimento de produto, a intenção é oferecer
a essência daquilo que se sabe
funcionar
no
desenvolvimento de produtos, trazendo não somente
um processo e descrições de ferramentas, mas,
principalmente, formas de
implementação prática das mesmas e exemplos. O
objetivo, aqui, não é tratar sobre filosofias e
metodologias, porque um grama de ação vale
mais que uma tonelada de teoria.
O manual é para
aqueles que desejam efetivamente
criar e desenvolver seus produtos e que não estão muito
preocupados com as bases filosóficas dos
processos de desenvolvimento. Espero que seja de proveito, ajudando o
leitor a desenvolver seus
produtos e, por conseqüência, a desenvolver este
País.
1 - Identifique Oportunidades
As oportunidades estão
por aí. Cada problema, cada sofrimento, cada desejo não
atendido contém uma ou mais oportunidades para a
criação de soluções. Para identificar
oportunidades de desenvolvimento de produtos, o fundamental é
ter uma atitude observadora e questionadora das coisas tais como elas
se
apresentam. Estas técnicas podem ajudar:
- Identifique e analise tendências do mercado e da
sociedade
Este instrumento envolve
identificar tendências que estão prevalecendo - ou, melhor
ainda, surgindo agora - e imaginar formas de explorá-las. Por
exemplo, uma tendência atual no Brasil é a
redução do tamanho dos domicílios. Isso cria, por
exemplo, a
necessidade por eletrodomésticos menores e produtos
alimentícios em embalagens menores. Você pode observar nos
supermercados que várias
empresas já estão explorando esta
tendência.
Mais informações sobre a análise de
tendências podem ser encontrados, por exemplo, nos livros
O Relatório Popcorn, de Faith Popcorn (POPCORN, 1993) e 60
Tendências em 60
Minutos, de Sam Hill (HILL, 2003). Você pode encontrar um resumo
das
tendências propostas por Faith Popcorn aqui.
Por outro lado, considere pensar grande: muito melhor do que seguir
tendências já mapeadas é criar novas
tendências.
- Observe produtos existentes sendo utilizados
Um instrumento bastante
útil para a observação é identificar as
etapas de uso de um produto e os problemas encontrados pelas pessoas
(clientes) ao
realizá-las. Kelley & Littman (2001), autores de A Arte da
Inovação, chamam isso de "considerar o produto como um
verbo, não um substantivo". Quase que de imediato, surgem
possíveis
soluções para os problemas, durante a própria
execução do processo de observação. Este exemplo (MARQUETTI et al., 2003)
ilustra o processo de
observação para uma nhoqueira de uso doméstico.
A observação permite ir muito além da simples
pesquisa de mercado. Ela possibilita verdadeiros insights sobre necessidades que o
cliente nem sonha em expressar e oportunidades escondidas.
- Identifique e implemente as idéias dos clientes
O Prof. Eric Von Hippel, do MIT
(VON HIPPEL, 2005) é um dos precursores da idéia do
cliente como inovador. É dele o termo lead user
(usuário
líder), que é o cliente que possui hoje as necessidades
que serão
gerais no mercado dentro algum tempo. Estes clientes podem
ser ativamente identificados e consultados, ou, mesmo, envolvidos no
processo de desenvolvimento de novos produtos, com grandes vantagens.
Um exemplo de utilização dos lead users ocorre em algumas
empresas usuárias de CAD (computer-aided
design). Uma indústria que usa o CAD nos seus limites e
mesmo além destes, numa determinada aplicação
(modelagem geométrica de produtos estampados, por exemplo),
é um usuário líder para a empresa que fornece o
CAD. Ela se torna uma co-desenvolvedora do produto, que,
posteriormente, pode ser aplicado por várias outras empresas.
Pense: quem são,
hoje, seus lead users? Como
você poderia atendê-los melhor e, assim, criar sua
próxima geração de produtos bem sucedidos? Quais
são as modificações que os usuários
líderes fizeram nos produtos e que poderiam ser incorporadas nas
futuras versões?
Tome cuidado, entretanto, para oferecer vantagens reais a seus
usuários líderes, agora parte de seu time de
desenvolvimento, e não desrespeitar as questões de
propriedade intelectual.
- Identifique e analise produtos existentes / concorrentes (ou
benchmarking de produto)
A identificação e
análise de produtos existentes / concorrentes é essencial
para implementar uma das principais regras do desenvolvimento de
produto: não
reinvente a roda! Analisando produtos existentes,
você identifica idéias que podem ser utilizadas no seu
produto, desde que respeitando os direitos de propriedade intelectual.
Também reconhece aspectos deficientes, que podem resultar em
vantagens do seu
próprio produto, se você conseguir encontrar
soluções melhores. Aqui você encontra um exemplo de
análise para bengalas
(BARBOSA et al., 2001)
utilizadas por deficientes visuais e um outro,
referente a raladores de alimentos
(VIANNA JR. et al., 2002).
Um caso particular da análise de produtos existentes /
concorrentes é o uso das informações
disponíveis em bancos de dados patentários. Nesses bancos
de dados, crescentemente acessíveis pela internet, é
possível encontrar produtos e processos que já
caíram em domínio público ou que não foram
patenteados no Brasil, permitindo sua livre exploração
comercial no País. Alguns sítios úteis para a
busca de patentes são os do INPI,
USPTO e ESPACENET.
Ao utilizar o benchmarking de
produto, esteja consciente de que os produtos aos quais temos acesso,
seja nas lojas ou nos bancos de dados patentários, representam o
passado. Um produto verdadeiramente novo, portanto, deve ser planejado
para ir além dos benchmarks da
indústria. Além disso, novamente, aqui, cabe o conselho: respeite
as questões de propriedade intelectual.
Aproxime-se dos clientes e
dos potenciais clientes e escute. Ouça o que eles têm a
dizer, quais as
dificuldades que enfrentam. Utilize um instrumento para isso, como
este, utilizado no reprojeto de uma roçadeira
lateral (DE CARVALHO, 1999). Cada dificuldade é uma
potencial
oportunidade de produto ou serviço.
Entretanto, saiba que o cliente não vai contar para você,
numa pesquisa, aquilo que ele considera característica
óbvio e obrigatório num produto (o retrovisor no lado do
passageiro de um automóvel). Ele também não vai,
na média, soltar a imaginação e imaginar grandes
novidades (automóvel que não necessite de estepe). Em
suma, a média dos clientes tende a ser conservadora e expressar
desejos e expectativas que ele considera razoáveis para o novo
produto. É responsabilidade dos desenvolvedores de produto
identificar, por benchmarking,
as características obrigatórias e, de formas criativas,
as novidades e inovações.
Analise o produto existente e as
possíveis modificações que ele poderia sofrer.
Em suma, use a imaginação. Osborn (1953), o inventor do brainstorming,
sugeriu o uso destas questões:
é possível adaptar, modificar, substituir, adicionar,
multiplicar, subtrair, dividir, rearranjar, inverter ou combinar?
Alguém pode querer uma escova de dentes sem cerdas (subtrair)?
Uma
lapiseira com
múltiplas pontas (multiplicar)? Um bebedouro que pode ser
pendurado no teto (inverter)? Como se pode verificar a partir das
idéias malucas acima, o
uso da voz do produto envolve questionar produtos existentes, num
primeiro momento e,
então, buscar possíveis utilidades para os "produtos
malucos" assim
criados. Não se surpreenda se surgirem grandes idéias
neste processo.
2 -
Defina
o Produto
Uma vez que tenha sido identificada uma oportunidade de
desenvolvimento de produto, é necessário partir para uma
definição mais detalhada dos clientes e das suas
expectativas em relação ao produto.
- Obtenha uma lista com as necessidades dos clientes
As necessidades dos clientes
são desejos ou demandas, colocados de forma mais qualitativa que
quantitativa e que expressam o que as diversas partes interessadas no
produto (compradores, usuários, distribuidores, fabricantes)
esperam do mesmo. Nesta lista, não podem deixar de ser
considerados aspectos econômicos, ambientais, ergonômicos,
de segurança, de estética e de durabilidade. Como
exemplo, esta é uma lista das
necessidades dos clientes para bengalas
para deficientes visuais (BARBOSA et
al., 2001). Também é
útil criar uma classificação das necessidades, a
qual pode ser qualitativa (demanda / desejo, baixa / média /
alta) ou numérica (percentual, por exemplo).
- Obtenha uma lista de especificações do
produto
As especificações
são os requisitos técnicos a serem atendidos pelo
produto. São obtidos a partir da tradução das
necessidades dos clientes em linguagem técnica e, também,
de normas e outras restrições (inclusive de
fabricação) que devem ser atendidas pelo produto. As
especificações servirão não somente para
orientar o desenvolvimento do produto, mas, para fornecer valores de
referência para os testes a serem realizados no protótipo
do produto, a ser construído na etapa 4, de projeto. Aqui
está uma lista de especificações para uma bengala para deficientes visuais
(BARBOSA et al.,
2001).
- Defina o funcionamento básico do produto
Este é o momento de
definir, em linhas gerais, como o produto deverá funcionar. O
novo produto terá princípios de funcionamento similares
aos existentes, ou fará uso de novas tecnologias?
Inovação tecnológica é importante, mas, se
pretendemos utilizar novas tecnologias, teremos suficiente
domínio das mesmas para viabilizar sua
incorporação em novos produtos?
No caso da bengala para deficientes visuais, imaginou-se que o novo
produto funcionaria de uma forma muito similar às bengalas
existentes, ou seja, seria uma extensão da mão do
deficiente, com a qual ele poderia tatear a uma certa distância
os objetos a seu redor, permitindo a orientação e o
desvio de obstáculos. Uma função adicional da
bengala é servir de aviso aos transeuntes sobre a
presença de um deficiente visual.
- Defina o estilo do produto
Ao lado da definição
funcional do produto, é muito importante definir questões
relacionadas ao estilo e ao significado do produto para os clientes.
É necessário manter uma identidade visual já
consagrada em versões anteriores do produto, de modo que o novo
produto seja facilmente reconhecido? Similarmente, é
necessário manter uma identidade de marca? Existe um
padrão de estilo para a categoria de produto que se deseje
manter, ou, pelo contrário, questionar com a nova proposta? Que
mensagens o produto deve passar para o cliente (estabilidade,
segurança, arrojo, aventura)?
3 -
Conceba o Produto
Se você chegou até aqui, já tem uma
idéia sobre o novo produto, bem como conhecimento sólido
sobre os potenciais clientes e suas necessidades, uma lista de
especificações que o produto deverá atender e
definições estilísticas. Agora, é preciso
conceber (ou inventar) produto.
- Detalhe as funções do produto
- Gere alternativas para a execução das
funções do produto
- Combine as alternativas geradas
- Escolha a alternativa que melhor atenda ao cliente
Detalhamento destas fases: em breve.
4 - Projete o Produto
Em construção.
5 - Proteja o Produto
Em construção.
6 -
Lance o Produto
Em construção.
Referências
- Barbosa, A. L. S.; Soresini, A. L. G.; Chudek, C. A. S.;
Brandalise, R. Bengala para Deficientes Visuais. Trabalho da Disciplina
Metodologia do Projeto. Curso de Engenharia Industrial Mecânica
da UTFPR. Orientador: Prof. Marco Aurélio de Carvalho.
Curitiba: CEFET-PR, 2001.
- De Carvalho, M. A. Modelo Prescritivo para a
Solução Criativa de Problemas
nas Etapas Iniciais do Desenvolvimento de Produtos.
Dissertação de Mestrado. Curso de Mestrado em Engenharia
de Produção da UFSC. Orientador: Prof. Nelson Back.
Florianópolis: UFSC, 1999.
- Hill, S. 60 Tendências em 60 Minutos. São
Paulo:
Futura, 2003.
- Kelley,
T., Littman, J. A Arte da Inovação - Lições
de
Criatividade da IDEO, a Maior Empresa Norte-Americana de Design.
São Paulo:
Futura, 2001.
- Marquetti, F. S.; Muniz, J. R. B.; Novicki, G.; Quinteiro,
L.; Böhm, L. G. F. Nhoqueira para uso Doméstico. Trabalho
da Disciplina
Metodologia do Projeto. Curso de Engenharia Industrial Mecânica
da UTFPR. Orientador: Prof. Marco Aurélio de Carvalho.
Curitiba: CEFET-PR, 2003.
- Osborn, A. F. Applied Imagination. 1a. ed. New York: Charles
Scribner´s Sons, 1953.
- Popcorn, F. O Relatório Popcorn - Centenas de
Idéias de Novos Produtos, Empreendimentos e Novos Mercados. Rio
de Janeiro: Campus, 1993.
- Vianna Jr., A. de C.; Prestes, J.; Weingaertner, M.; dos
Santos Jr., R.
P. Ralador de Alimentos. Trabalho da Disciplina Metodologia
do Projeto. Curso de
Engenharia Industrial Mecânica da UTFPR. Orientador: Prof.
Marco
Aurélio de Carvalho. Curitiba: CEFET-PR, 2002.
- Von Hippel, E. Democratizing Innovation. Cambridge: MIT
Press, 2005.
Autor:
Marco Aurélio de
Carvalho - todos os direitos de autoria reservados
Contato: marco[arroba]decarvalho.eng.br
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